1 - HOMEM SÓ

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: LUIZ WAACK

sou um homem só olhando o céu
na noite fria através da janela —

a mão esquerda apoiada no ombro
os olhos perdidos em nuvens alheias —

tive mulheres seios ondas segredos
e a mesma sede que nunca cede —

palavras arderam a pele da alma
e silêncios arrepiaram os pêlos —

sou pai sou mãe um anjo e criminoso
bebendo nacos de nuvens sem gelo —

na noite fria através da janela
um homem só olhando o céu —

Ademir Assunção: voz
Luiz Waack: violão de aço




2 - ESCRITO A SANGUE

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN

ruas escuras
atravessado
eu atravesso
reviro o avesso
nele me meço
olho de lince
encaro a face da fera
espelhos se estilhaçam
rasgam minha cara
cai a neblina do vazio
frio na barriga
pago o preço
erva bola cogumelo
volto ao começo
escapo com vida
desconverso
verso escrito a sangue
desapareço
quanto mais
menos
me pareço
eco de bicho homem
ego sem endereço

Ademir Assunção: voz
Madan: voz cantada e violões
Luiz Waack: guitarras
Mintcho Garramone: baixo
Eduardo Batistella: bateria


3 - E ENTÃO?    

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN E RICARDO GARCIA


E então?
Você já encarou a cara da barra de cara?
Já viu o ódio na cara do cara?
Saiu mais louco que um cachorro louco?
(Sem medo do olho do lobo no olho)

E então?
Você já queimou as pestanas em vão?
Vendo a chuva no chão o sangue no chão?
A pata quebrada de um cão?

E então?
Você já ficou mudo de medo?
Você já chorou em segredo?
No canto da cela de uma prisão?

E então?
Você já ouviu Itamar Assumpção?
Já teve coragem de dizer não?

Você que sabe sabe de qual estrela vieste?
Você que sabe sabe com qual roupa a solidão se veste?

E então?
Qual o preço que você paga pra se sentir seguro?
Qual o preço que você paga pra chegar no futuro?
Quantas moedas colocam você em cima do muro?

Ademir Assunção: voz
Luiz Waack: violões, guitarras, sampler e vocal
Mintcho Garramone: baixo
Ricardo Garcia: pandeiros, derbak e pratos



4 - NADA DEMAIS

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN E RICARDO GARCIA

houve um tempo torto
um certo tempo atrás
letras sílabas palavras
não explodiam mais
não explodiam mais nada
e todo o tempo era nada
nada mais que papéis
nada mais que aluguéis
nada demais se o cabelo crescesse
se o outrora mestre desaparecesse
nada mais somado ao menos era mais
nada mais de nenhuma serpente esperta
nada mais de nenhuma espera otária
era um tempo de quase desespero

e depois do vespeiro veio o esmero
veio o tempo em que tudo era nada
ninguém sabia nada
ninguém sabia nada
e quem sabia que não sabia se calou
e toda a cidade procurou um velho sábio
que cruzava a cidade numa velha calói
e vendo a gente aflita o sábio riu e disse:
não há nada demais se tudo não é nada
se tudo o que eu sei não serve pra nada
e quem sabe que sabe não se afoba
e quem sabe que nada não se afoga

Ademir Assunção: voz
Edvaldo Santana: voz
Luiz Waack: violões, guitarras e samplers
Mintcho Garramone: baixo
Eduardo Batistella: bateria
Ricardo Garcia: pandeiro
Daniel Szafran: piano



5 - NOITE & DIA

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN

deixe que o sol se    deite
sobre seu leito         deixe
que eu beba o          leite
do seu corpo            deixe
que o calor do           beijo
dissolva a bruma       deixe
que ao cair a noite    deixe
suor e seiva   dor nenhuma


poema incidental: PATAS DE PANTERA

O vento frio me mata  Um beijo
me recria Quem sabe uma noite
inteira Ou na metade de um dia
Ela pise com patas  de  pantera
Sobre    essas    páginas    frias
Elegante como quem volta Sem
saber            onde               ia

Ademir Assunção: voz
Madan: voz cantada e violão
Daniel Szafran: piano e teclado


6 - CÂMERA INDISCRETA    

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN

olho o olho que me olha
olho o olho
olho a lua
o olho que me olha olha mas não vê

olho o olho que me olha
olho a rua a lua a rua a rua a rua
eu atravesso a rua
o olho que me olha olha mas não sabe o quê

olho o olho no espelho
olho de loba
o olho que me olha olha mas não lê

vou olhando olho a olho corpo a corpo
olho ilhas
olho dentro de você


poema incidental: RIVIERA 7:20PM

seu olhar distraído
cisca aqui e ali
busca sabe-se lá o quê
passa em volta esbarra volta
e numa súbita carícia linda
pousa pluma em meu olhar
e a pele pelúcia se arrepia

Ademir Assunção: voz
Zeca Baleiro: voz cantada
Madan: violão
Celmo Reis: violino
Ricardo Garcia: apito-coruja



7 - O ESPINHO NO DEDO DE DEUS

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN

dia após dia, notícias ruins
detonando a minha cabeça

faróis, os olhos vasculhando a madrugada
eu rio, rio de janeiro, eu rio
eu rio todos os risos que me fazem chorar

olhos de lobo, faróis acesos na cidade
eu vejo horror nas ruas
bang bang nos becos e nas avenidas

e esse seu fogo
é palha, é traque, é truque de cena

de um filme que não dá mais pé

não venha detonar minha cabeça
nem tente sugar o meu sangue não

meu sangue não
meu santo é negro

e no peito tenho um bicho preto
com garras de pantera e olho de gavião

meu sangue não
meu sangue é de negão

tenho no corpo as marcas de chernobyl
tenho no bolso uma bomba que ainda não explodiu

meu reino não é nesse mundo
eu sou a pimenta do reino

eu sou do mundo eu não sou seu
eu sou o espinho no dedo de deus

Ademir Assunção: voz
Madan: violões
Luiz Waack: guitarras e efeitos
Ricardo Garcia: vaso, chocalho, pratos e tamborim



8 - O COISA RUIM

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN E RICARDO GARCIA

me querem manso
cordeiro
imaculado
sangrado
no festim dos canibais

me querem escravo
ordeiro
serviçal
salário apertado no bolso
cego mudo e boçal

me querem rato
acuado
rabo entre as pernas
medroso
um verme, pegajoso

mas eu sou osso
duro de roer
caroço
faca no pescoço
maremoto tufão furacão

mas eu sou cão
ladro
mordo
arreganho os dentes
incito a revolta dos deuses

toco fogo na cidade
qual nero
devasto o lero lero
entro em campo
desempato

eu sou o que sangra
um poeta nato

Ademir Assunção: voz
Luiz Waack: violões, guitarras e samplers
Mintcho Garramone: baixo
Ricardo Garcia: treme-terra, cajon, djembê, congas, reco-mola, caxixi e efeitos



9 – RATOS

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN

você pensa
o sol é seu
e o sol descreve um arco
escapa
das suas mãos
e aparece
no japão

você soma
a soma das suas somas
e as somas somem
escapam
das suas mãos
e os ratos roem
a espuma do seu colchão

você bebe
vodca gin conhaque
de alcatrão
e duvida
dos sinais do coração
e enfim se deita
a sete palmos do chão

Ademir Assunção: voz
Madan: voz cantada
Luiz Waack: violões, guitarras e samplers
Mintcho Garramone: baixo
Eduardo Batistella: bateria
Ricardo Garcia: congas
Daniel Szafran: teclado



10 - A LIRA NO LIXO   

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN E RICARDO GARCIA

pensam o poeta
um ente otário
doente
sem dinheiro, um falsário
profeta picareta
um prego enferrujado
espalmado
na mão direita

pensam o poeta
um junkie solitário

trama o poeta em seu nicho
palavras mágicas
sendas ocultas
senhas surdas
risca um risco no disco
cisca um cisco preto
no mármore preto
e cata iguarias no lixo


poema incidental: RUPESTRE

tudo que cala
sutil caqui cabala
trinos de tons no poente
espelho serpente pente

vê se vê cara-pálida
nessa pele de aparas
meu código morse
meu corte rente

Ademir Assunção: voz
Luiz Waack: guitarras
Mintcho Garramone: baixo
Eduardo Batistella: bateria
Daniel Szafran: teclado



11 – PÓ

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: MADAN

tantas tardes

lembrando
sim
sou pó

pó de estrela
pó de mico
pó de poesia
este cisco
ó

olhe bem
é raro
este pó
este ritmo
custa caro

custou ares e amores
muitos tremores
tantas trocas de roupa
pensa
não é sopa

mas opa
batem à porta:
cobrança!
imposto!
fique onde está!

pois não
claro
homens de negócio

fiquem vocês com este pó

mas eles gritam:
não
é pouco
prendam o poeta
é negro bicha e louco

Ademir Assunção: voz
Madan: voz cantada e violão
Luiz Waack: violão e guitarras
Mintcho Garramone: baixo
Ricardo Garcia: pandeirola
Eduardo Batistella: bateria




12 -TANTAS PONTAS

Poema: ADEMIR ASSUNÇÃO
Música: LUIZ WAACK

daqui, dessa janela, manhã
chegando, luzes da cidade
que vão se apagando, flores
florindo, entre eu e o céu,
um outro azul vivido, um outro
véu, seu corpo, dentes,
pernas, coxas boas, olhar
que não se cansa de sorrir, talvez
garoa, gatos na neblina, tantas pontas
juntos e agora, pra que juntar
os trapos, dar o fora?

Ademir Assunção: voz
Luiz Waack: guitarra


PRODUZIDO POR LUIZ WAACK E ADEMIR ASSUNÇÃO

DIREÇÃO MUSICAL: Luiz Waack e Ademir Assunção
ARRANJOS DE BASE: Madan, Ricardo Garcia e Ademir Assunção (faixas 3,4,7,8,10),
Madan (faixas 2,5,6,9,11), Luiz Waack (faixas 1,12)
ARRANJOS COMPLEMENTARES: Luiz Waack
GRAVAÇÃO E MIXAGEM: Luiz Waack (H. Studio Waack),entre junho/2003 e março/2005
MASTERIZAÇÃO: Mauricio Grassmann (Estúdio Frequência Rara), abril/2005
FOTOS: Juvenal Pereira
FOTO VERSO DO ENCARTE: Jacqueline Sasano
DESENHOS CAPA E ENCARTE: Paulo Stocker (http://stockadas.zip.net)
PROJETO GRÁFICO: Eduardo Rodrigues
Zeca Baleiro: artista gentilmente cedido pela MZA